Resiliência e criatividade em tempos de Coronavírus
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Resiliência e criatividade em tempos de Coronavírus

Como o setor de confeitaria está se movimentando para minimizar os impactos do isolamento social necessário para aplacar a Covid-19

por Juliana Bianchi - 23/03/2020

Os chocolates estavam comprados, as embalagens chegando e a produção de Páscoa começando a aquecer quando, de uma hora para outra, o mundo virou de ponta-cabeça. Bares e restaurantes fechados foram os mais alardeados pela mídia, com o risco de perdas de empregos na casa dos milhões.

Entretanto, nessa conta, por si só assustadora, o setor de confeitaria ficou de fora. Não foram incluídas lojas de todos os portes, doceiras informais que arriscaram boa parte de suas economias em estoques para a época de melhor faturamento para quem trabalha com chocolate, ou mesmo bufês e boleiras, cujas rendas dependem da realização de festas e confraternizações, agora proibidas pela ameaça de um inimigo invisível, mas infelizmente cada vez mais real. O que torna a situação ainda mais grave.

“A cabeça não para. Estamos tentando desenhar vários cenários possíveis e como sair deles. Mas a realidade muda o tempo todo”, diz Daniela Gorski, sócia da confeitaria Dama. Desde o dia 19 de março cinco das seis lojas da rede foram fechadas e 99% da equipe, afastada por tempo indeterminado. “Ainda temos bases e pré-preparos no estoque da loja-matriz, onde estamos mantendo minimamente a produção e atendendo a retiradas e delivery, mas tivemos de remanejar tudo”, completa.

Assim como ela, todo mundo precisou encarar a nova realidade, se adaptar rapidamente e ser criativo para proteger o fluxo de caixa e as pessoas a seu redor. Cada um a seu modo. Sem regras pré-estabelecidas ou fórmulas de sucesso garantido. Não há como prever o futuro.

Com cinco das seis lojas fechadas, a Confeitaria Dama segue com a produção diária de mil-folhas para delivery ou retirada na unidade matriz, em Pinheiros (SP). | foto Antônio Rodrigues/ Divulgação

“São tempos de incerteza. Não temos muitas respostas. É preciso que cada um avalie bem a realidade do seu negócio, seu estoque, operação, colaboradores e público, e faça o que faz sentido para si, genuína e generosamente. Não é o momento de pensar de forma marqueteira”, aponta Patrícia Abbondanza, especialista em negócios na área da gastronomia e fundadora do FoodLab.

Assim, as iniciativas se multiplicam, e se modificam. Há quem esteja firme apenas com o delivery, como Carole Crema e Stefan Behar. Quem já tenha passado por esse caminho e decidido encerrar de vez a operação por tempo indeterminado, como Marília Zylbersztjn e Luana Davidson (Confeitaria da Luana). Quem esteja trabalhando com rodízio de funcionários, e quem tenha decidido voltar à estrutura solo, na cozinha de casa mesmo, para não colocar mais ninguém em risco nos deslocamentos.

Quem tenha adiantado não só as encomendas, como as entregas para a Páscoa – vai saber até quando será possível se locomover nas diferentes cidades. Quem esteja promovendo descontos para dar vazão aos produtos – principalmente os mais perecíveis –, quem isente o frete e quem ofereça vouchers para consumo pós-crise.

A sensação geral é de que estão todos recomeçando. Voltando aos tempos em que cada novo pedido era comemorado e cada entrega feita com esmero redobrado. O que agora inclui litros de álcool gel, luvas e máscaras.

JUNTOS POR UMA CAUSA

Campanhas que incentivam comprar de pequenos produtores se multiplicam pelas redes sociais, bem como as que pedem o adiamento, e não o cancelamento, de eventos. Um movimento para a prorrogação da Páscoa até junho também foi lançado e vem sendo apoiado até mesmo por confeiteiras como Mara Cakes.

Mas há quem veja a iniciativa com ressalvas. “Temos de ser muito resilientes nesse momento, mas acho que podemos encontrar soluções melhores do que essa. Páscoa é mais do que chocolate. É uma festa cristã, que tem um significado maior do que os ovos. Chocolate tem uma boa validade. Poderemos aproveitá-lo em outros tipos de campanha, como Dia das Mães, Dia dos Namorados. Acho que isso seria mais bem-aceito pelo público”, avalia Joyce Galvão.

Ações que coloquem o faturamento (ou parte dele) de lado por uma causa maior também têm ganhado força. Após ver suas aulas no Senai serem canceladas, a professora de gastronomia Juliana Vieira decidiu criar o projeto Doce para Vida, no qual incentiva e ajuda a organizar a doação de bolos e doces para os profissionais da saúde que estejam em plantão.

“Por enquanto, ainda está relativamente calmo nos hospitais, mas daqui a pouco será uma loucura. Eles não poderão ir para a casa, serão afastados de suas famílias e estarão vivendo sob pressão constante. Não nos custa muito levar um pouco de carinho. Além do mais, será uma forma de ocupar o tempo e a cabeça de quem está ficando doido em casa”, diz ela, que teve a ideia ao conversar com uma cliente enfermeira.

Para quem não tem conseguido dormir, lives e grupos de empreendedores se multiplicam nas redes para agilizar a troca de experiências, fomentar o debate e aliviar a tensão. Camila Dutra (Feito com Amor) abriu um grupo no Facebook para discutir ideias para driblar a crise, Renata Penido estabeleceu uma agenda de talks virtuais sobre empreendedorismo e o próprio FoodLab está promovendo lives nesse sentido.

PRESENÇA VIRTUAL E OPORTUNIDADE

Um caminho encontrado por alguns profissionais-referência para manterem-se próximo ao público, num momento em que não há entrega de produtos ou serviços, tem sido reforçar a presença nas redes sociais. Vídeos e posts com passo a passo de receitas não param de pipocar no Instagram, YouTube e Facebook.

Na conta de Instagram do prestigiado confeiteiro francês Philippe Conticini, a equipe tem se revezado para dar aulas ao vivo. O espanhol Jordi Roca deixou gravado em seu perfil receitas de souflés e Christina Tosi (Milk Bar – NY) abriu os segredos de seu famoso cookie de chocolate, marshmallow e flocos de milho no Stories.

Por aqui, receitas de brigadeiros e bolos de cenoura, milho e chocolate parecem não ter fim nas redes. De Nelson Pantano (The King Cake) a Flávio Federico, todos vêm apresentando algumas de suas receitas da cozinha de casa como forma de se conectar e mostrar empatia com o público. Alguns vão além, e criam oportunidades de aprimoramento para quem está com ritmo menor de trabalho ao reduzir o preço de cursos online, como fez Diego Lozano.

Se fazer qualquer tipo de investimento neste momento não for o caso, sempre vale aproveitar o tempo livre para olhar para dentro e repensar o próprio negócio. “É hora de parar um pouquinho para analisar como sobreviver a esse momento de forma responsável e renascer fortalecido”, afirma Patrícia. “Reveja seus custos, mix de produtos e serviços. Avalie como tornar viável pequenas comemorações, veja outras formas de consumo do seu produto e descubra como ter uma entrega interessante, que engaje o público”, completa a consultora, apontando alguns passos.

De resto, é a aproveitar a crise para se reinventar e crescer ainda mais no futuro. Afinal, como diz o ditado, é em momentos como esse que nascem as grandes invenções e estratégias.

 

crédito foto capa: @chuttersnap

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