


Cuca Gaúcha (doce de leite com chocolate)
Você não entende nada de cuca, acredite! Por isso compartilho minhas histórias para aproximar você desse doce afetivo e muito especial!
por TISSIANI ZORZI
Quando eu escutava minha mãe chegando em casa, saía correndo do meu quarto feito louca pra encontrar ela na escada, na esperança de vê-la segurando um pacote de papel pardo nas mãos. Nem sempre acontecia e eu voltava como cachorro arrependido com o rabo
entre as pernas. Quando acontecia eu tomava rapidamente o pacote das mãos dela e saia correndo pra cozinha!
Esbaforida, eu colocava o pacote na mesa e abria feito uma selvagem, rasgando o embrulho até um inconfundível perfume de manteiga invadir meu nariz, revelando uma cuca dourada, com muita farofa e recheada com requeijão. O pequeno pedaço tinha que ser dividido entre quatro pessoas, pois era muito caro e, para fazer o meu pedaço durar o máximo possível, eu comia pelas beiradas até ficar só o miolo farto de requeijão. Ah, eu lambuzava os dedos… Era glorioso!
Minha mãe sempre me dizia que essa minha paixão por cuca era herança da minha parte alemã (meu avô materno é descendente de alemães). Eu sempre fui apaixonada pela mistura de doce com salgado e, sempre (sempre) começo pela sobremesa!
Essa é só uma memória envolvendo esse bolo (ou pão? Ixi…) de massa doce tão amado por essas bandas onde moro. Não é tão fácil escrever sobre a cuca, tão icônica no Sul quanto o sagú de vinho com creme e o churrasco. Aliás, tu já comeste cuca com churrasco? Faça esse favor pra ti mesmo(a)!
Tenho várias outras memórias para compartilhar com você! Tentativas frustradas de reproduzir a receita da minha mãe, talvez porque ela não era uma exímia cozinheira e nem queria ser e deixou a receita incompleta. As cucas das minhas tias, dispostas lindamente na mesa do churrasco de domingo na casa do meu nonno, brilhando ao lado das saladas de batata e maionese. Era como uma disputa silenciosa de quem tinha feito ou comprado a cuca mais gostosa! Pensando bem… Acho que até com as saladas havia uma competição!
Nessa mesa repleta de comida reinava a cuca italiana, de massa mais firme, sovada, parecendo um pão doce, geralmente sem recheio, algumas até com sementes de erva doce. Ah! E tinham os cafés da manhã ou da tarde, sempre com uma fatia de cuca besuntada com margarina ou uma torrada (misto quente) feita em torradeira de fogão.
Quando eu tinha 13 anos comecei a me aventurar na cozinha. Foi natural querer aprender sobre pães, biscoitos e bolos… Sempre foi o meu lance! Comecei a escrever meus caderninhos de receitas e desses escritos, fiz minha primeira cuca alemã, de tabuleiro, com cobertura de goiabada e requeijão cremoso. O resultado foi tão bonito que meu irmão não esperou esfriar e acabou com a boca toda queimada de goiabada!!
O tempo passou e resolvi estudar gastronomia. Foi então que entendi como era a culinária da minha família, escutando as histórias que compartilhavam comigo. A cuca não era feita com manteiga, nem levava doce de leite! A cuca era feita com banha de porco, o que era, e é, muito comum em Chapecó, Santa Catarina. O recheio vinha dos doces de frutas da estação já que minha nonna tinha um pomar gigante na propriedade e, segundo meu pai, era um luxo. Além disso, a cuca era servida somente em ocasiões especiais…
Eu não sei dizer quando a cuca gaúcha surgiu, quase não existem registros. O que sei é que a palavra cuca é derivada da palavra streuselkuchen e, em alguns lugares também é chamada de cuque. O streusel, aquela farofinha crocante no topo, era usado em bolos de tabuleiro lá na Alemanha, mas aqui Brasil utilizava-se apenas açúcar.
Acredito que em algum momento a mistura da cultura dos imigrantes italianos e alemães, que chegaram aqui no Sul por volta do século XIX, resultou na cuca gaúcha. Infelizmente não consegui encontrar informações sobre, é uma suposição. Se você souber, por favor, me escreva!
Esse não é um texto científico ou técnico, e nem traz dados exatos. São histórias que divido para que conheça melhor a cuca, que é um doce cheio de afeto e carrega histórias de muitas famílias.
Para esse ano tão atípico eu resolvi colocar a cuca na minha ceia de Natal e convido você a fazer o mesmo! Sei que nem todo mundo consegue fazer panettone em casa, mas com certeza conseguirá fazer uma cuca deliciosa e especial! Uma massa perfumada com raspas de laranja e especiarias, recheada com muito doce de leite e chocolate, e coroada com uma farofinha bem crocante (brasileiros
e sua paixão por farofa, né?)
Pedi licença pra minha nonna, e para as deusas da cuca, e meti o meu dedinho em algumas coisas que sempre me incomodaram no preparo. Aqui vão algumas dicas para você ter sucesso no preparo:
1. Minha primeira mudança foi justamente caprichar no perfume da cuca! Quando compro uma cuca, geralmente elas são feitas com uma massa neutra, sem sabor e que não me conquista! Por isso abuse das raspinhas de laranja!
2. Pouco recheio ou só uma cobertura tímida: NÃO! Não, não dá! É
como comer pastel, ninguém quer pastel de vento! Sem miséria no recheio, por favor!
3. Mexi também no formato. Errr, só um pouquinho! Eu me inspirei na babka, pão de origem judaica – e vou dizer que também tenho uma pulga atrás da orelha, não sei se a babka e cuca são parentes tão distantes assim…
Para mim a babka tem a medida exata entre recheio e massa, e por isso, o formato aqui preza pelo equilíbrio!
Agora não adianta contar tanta história, encher você de água na boca e não compartilhar minha receita né? Aqui está meu presente de Natal, com muito amor e desejo de coisas boas!
Feliz Natal!!!
ESSA RECEITA
RENDE 1 UNIDADE
SERVE 6 A 8 PESSOAS
INGREDIENTES
AH!
*meu favorito é o limão cravo, mas aqui no Sul só encontramos
no inverno, se tiver, use!
MASSA
- 120-180mL
leite integral morno - 6g
fermento biológico seco - 400g
farinha de trigo tipo 1 - 1 unidade | 50g
ovo médio - 50g
açúcar cristal - 40g
manteiga sem sal - 1 colher (chá) | 5g
sal marinho moído - a gosto
noz moscada ralada na hora - 1 colher (chá) | 5mL
extrato de baunilha - raspas de 1 unidade
laranja (pera, Bahia, lima…) - raspas de 1 unidade
limão siciliano*
RECHEIO
- 350g
doce de leite pastoso - 200g
chocolate meio amargo ou amargo picado
STREUSEL
- 50g
açúcar mascavo - 25g
açúcar cristal - 20g
farinha de nozes ou nozes bem trituradas - 60g
farinha de trigo tipo 1 - 60g
manteiga derretida - 1 colher (chá) | 2g
canela em pó - ½ colher (chá) | 1g
gengibre em pó - pitada de sal
MONTAGEM
- 1 unidade
ovo médio (para pincelar) - quanto baste
manteiga (para untar) - 1 colher (chá) | 5mL
água filtrada
FICA A DICA
Você precisa de uma boa farinha, acessível, sem necessidade de se preocupar com a força dela! Não é uma massa super hidratada, logo é mais firme, e por isso tem que colocar força no momento de sovar!
Se necessário ajuste a quantidade de líquidos para sua massa ficar macia. Ela é “pegajosa” no início e macia para trabalhar! Fique atent@!
COMO PREPARAR
MASSA
- Em uma panelinha aqueça o leite até amornar. Desligue o fogo e adicione a manteiga. (mantenha a temperatura morna em cerca de 36 a 38°C, tipo mamadeira de bebê).
- Em uma tigela junte o açúcar, as raspas de laranja e limão, a noz moscada e a
baunilha. Esfregue com as pontas dos dedos para extrair bem os aromas das especiarias. Reserve. - Junte ao açúcar perfumado a farinha, o sal e o fermento. Misture.
- Acrescente o leite morno e em seguida o ovo. Misture até incorporar todos os ingredientes.
- Quando formar uma massa homogênea, transfira para bancada polvilhada com um pouco de farinha e sove.
- Sove até formar uma massa lisa, elástica, que não grude nas mãos ou bancada (Se quiser faça na batedeira com o gancho).
- Volte a massa para a tigela, tampe com um pano e deixe crescer até dobrar de tamanho.
FAROFA
- Derreta a manteiga em uma panelinha.
- Junte todos os ingredientes em uma tigela e despeje a manteiga.
- Misture com um garfo e deixe repousar na geladeira.
MONTAGEM
- Unte uma fôrma de 22x10x9cm de pão ou bolo inglês com bastante manteiga. Reserve.
- Espalhe farinha sobre a bancada, coloque a massa e abra com um rolo até ficar com cerca de 1cm de altura. É bem fina!
- Passe o doce de leite com uma espátula ou colher e jogue o chocolate picado.
- Enrole a massa feito um rocambole. Dobre ao meio formando um U e enrole uma ponta
sobre a outra até o fim, como se fosse uma trança. Dobre a pontinha que sobrou para baixo
dessa trança. - Coloque na fôrma e deixe dobrar de tamanho.
- Enquanto isso preaqueça o forno em 200 °C.
- Assim que a massa dobrar de tamanho, passe o ovo batido com a água.
- Pegue a farofa da geladeira e esfarele com
o garfo. Espalhe sobre a cuca e leve para assar por cerca de 35-40 min. Fique de olho! - Retire a cuca assada do forno, deixe amornar um pouco e então, desenforme sobre uma grade para esfriar completamente. Corte só depois de descansar e esfriar, caso contrário, ela vai desmontar todinha!!!
PARA ESTUDAR


A polêmica da branquitude assassina
MÃO NA MASSA

Trança de amêndoas
