A polêmica da industro-artesanalidade
A polêmica da industro-artesanalidade

A polêmica da industro-artesanalidade

O que distancia o fazer artesanal do industrial? Um ingrediente, máquinas ou o próprio artesão?

por Lucas Mota - 02/06/2020

Vamos bater um bate papo filosófico “de boas”, sem “quimiquês”, matemática e sem complicações?

O prato, quero dizer, a polêmica do dia é: qual o limite entre algo ser artesanal ou industrial?

Eu sou engenheiro químico e, apesar de química no nome a função principal desta profissão é escalonar produção, isto é, transformar um processo que nasce numa escala pequena, laboratorial, para algo de escala industrial, dimensionando equipamentos, processos e o que mais for necessário. Ela é uma ramificação da aposentada Engenharia Industrial que, com o crescimento de diferentes processos, foi dividida em outras engenharias. Esse mesmo crescimento e evolução fez a própria Engenharia Química também ser ramificada, nascendo a Engenharia de Alimentos, totalmente voltada para o processo industrial do que nasce em cozinhas naquela mesma escala pequena, laboratorial.

Falar de artesanato talvez seja algo fora da minha formação, mas vou,  com o dicionário debaixo do braço, ser coeso ir ao ponto onde quero chegar.

A palavra artesanal deriva da palavra arte e a primeira definição que temos é de algo relativo ao artesão. Logo, algo é artesanal quando é feito por um artesão que expressa, nesse algo, sua arte.

Para fins didáticos vamos imaginar um cenário onde nosso artesão, o Seu Amenezindo, faz brigadeiros em sua casa. Este artesão está fazendo sucesso com seus produtos (cada dia consegue mais clientes!) mas, ele tem um problema clássico entre quem faz as coisas em casa: tem dias que seus clientes falam que seu produto não está tão bom quanto da última vez. O talento que ele tem para fazer brigadeiro é o mesmo porém, ele chega à conclusão que precisa repetir precisamente seu processo de fabricação a fim de manter a qualidade do produto constante.

A primeira coisa a fazer é fixar as matérias-primas. Ele começa a comprar apenas ingredientes de marcas que ele confia. Depois ele resolve aposentar as xícaras e copos medidores e comprar uma balança para ter certeza que está colocando exatamente a mesma quantidade de ingredientes em cada receita. As reclamações sobre as diferenças diminuem mais e as vendas começam a crescer. Com esse incremento de vendas ele não dá conta de produzir sozinho a quantidade de brigadeiros necessárias para atender seu público. Então ele chama a Dona Zelirdes, sua esposa, habilidosa na cozinha tanto quanto ele, para ajudar. Só que infelizmente voltam as reclamações!

Seu Amenezindo percebe que sua esposa segue sua receita a risca, mas não segue exatamente os passos dele na preparação dos brigadeiros. Então ele senta com ela e, juntos, escrevem um passo-a-passo detalhado: como ele mexe, como ele adiciona os ingredientes, o tempo de preparação de cada etapa, etc. Dessa maneira ambos poderão fazer o brigadeiro da mesma forma. Com isso, mais uma vez, eles conseguem ver melhora na opinião dos clientes e as vendas aumentam.

Com o passar do tempo e com sucesso, mais e mais pessoas precisam entrar no processo para atender a demanda de brigadeiros. Máquinas são compradas para fazer etapas não essenciais (como embalagem, por exemplo) e pré-preparações (pesagens, misturas, etc). Nessa altura as receitas já viraram Formulações e os passo-a-passos viraram Instruções de Trabalho. Só que Seu Amenezindo continua lá, trabalhando na produção de brigadeiros. Até que um dia… Ele decide investir mais ainda!!!

Sabendo o processo de cor e salteado, compra panelas automáticas que mexem exatamente na velocidade que ele mexe, e pelo tempo que ele acredita que seja o melhor. Tudo com termômetros para controlar a temperatura de cada etapa! A adição de ingredientes é feito por dosadoras e, por ai vai… O processo fica tão bom que ele nem precisa mais colocar a mão, nem precisa que pessoas muito experientes, como sua esposa, operem essas máquinas. Ele precisa apenas de operadores de máquinas treinados com as instruções que ele redigiu debaixo do braço. Aqui acaba o artesanal, no momento que o artesão não mais interage com o produto.

O que vimos nesse exemplo foi a evolução da escala de um negócio através de ferramentas de engenharia. Porém, o uso destas ferramentas sozinhas, na minha humilde opinião não é o que separa artesanal de industrial. Muitos dizem que a industrialização está no uso de máquinas. Para mim não é bem assim! Bolo artesanal é só o que é batido à mão, sem batedeira? Outros dizem que é pelo uso de produtos industrializados… Para mim não tem sentido (só se as pessoas estão batendo manteiga em casa e eu não estou sabendo!).

Arte precisa de artista, artesanato de artesão. Não importa maquinário (escultor de madeira não pode usar serra?), matéria-prima (quadros só podem ser pintados com pigmentos naturais?) ou número de envolvidos (Deus me livre uma música feita por mais de uma pessoa!). Enquanto houver a ligação direta do artista há arte. Quando não há é o caso do brigadeiro do Seu Aniceto: há a reprodução exata do que ele fez. Mas é só isso, uma reprodução em série!!! Assim como não há arte em quem imprime reproduções de quadros famosos…

Paro o pensamento por aqui porque cansei. Você gostou do texto? Conte para a chefia, caso contrário guarde para você pois estou querendo só elogios!

Abraços de quarentena a todos.

 

imagens: unplash

imagem capa: I love Lucy – reprodução

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