A polêmica do bolo tsunami

Voluptuoso, exagerado e controverso, o bolo do momento nas redes sociais divide opiniões, mas não se pode negar: tem um ótimo apelo visual.

por Juliana Bianchi

Ele nasceu em meados de abril, quando a maior parte da população ainda levava o isolamento social a sério e descontava na comida a ansiedade gerada pelo desconhecido coronavírus. De uma hora para outra, Instagram, YouTube, WhatsApp e Facebook foram invadidos por esse vírus açucarado, apropriadamente batizado Bolo Tsunami. Quem o criou, não se sabe ao certo. Mas dificilmente alguém passou incólume a essa overdose visual, independente do ramo de atividade.

“A imagem, em si, tem um quê de sensacionalista. Mas, no fim, o bolo é apenas uma grande sequência de erros sem sentido”, avalia o chef confeiteiro Lucas Corazza, jurado do programa “Que Seja Doce”, da GNT.

É um bolo com muito apelo visual. Tem essa cara gulosa, exagerada, lúdica. Do ponto de vista de um chef confeiteiro é um excesso, não é um bolo equilibrado”, analisa a chef confeiteira Otávia Sommavilla, autora da “Enciclopédia dos Bolos”, coleção de três livros publicados recentemente pela Editora Melhoramentos. “Mas poder levar para a casa do cliente a experiência de ver aquele monte de cobertura escorrendo quando se tira o acetato é muito interessante. Encanta. Apela para a memória afetiva daquela criança que ficava só esperando a oportunidade de passar o dedo na cobertura do bolo”, completa, amenizando a questão.

Já para a professora de confeitaria e panificação do curso de Gastronomia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Paola Biselli, a criação beira o vulgar pela estética exagerada, que tende a mascarar os sabores. “É quase uma sopa com um bolo no meio. Não tem muita técnica. É um bolo de execução simples. Por isso que quem é profissional acaba desvalorizando”, diz. “Mas ao mesmo tempo é muito ‘porn food’ e indulgente, e isso é a cara do brasileiro. Tem público. Vende”, acrescenta.

Não à toa, a confeiteira influenciadora Tábata Romero, que recentemente alcançou a marca de 1 milhão de seguidores no YouTube, correu para apresentar seu tutorial de “faça e venda” para ajudar boleiras que quisessem surfar na onda. Em três meses, o vídeo com a primeira receita (sim, tiveram outros sobre o tema) teve 250 mil visualizações. E, nele, ela deixa bem claro o porque do sucesso. “Esse bolo é mais do que uma receita. É um investimento de marketing. É ele que vai chamar novas pessoas para entrar em contato com você. Ainda que elas não fechem porque esse bolo pode ser caro para elas, você poderá oferecer outros produtos e ganhar novas encomendas”, diz ela no vídeo. O preço de venda sugerido no vídeo é R$ 54.

Assim como ela, outros canais e confeitarias correram para postar suas versões. Fosse apresentando o efeito “uau” como esperado, ou com o bolo desmoronando no momento mais aguardado (ou pouco depois), como aconteceu com a primeira tentativa da confeiteira e influenciadora digital Dani Noce, durante uma “live”. Prova de que o mais importante é a brincadeira em si, e não necessariamente o sabor ou a perfeição da estrutura.

Entretanto, fica novamente o alerta. “Isso é passageiro. Coisa de Instagram. Aproveite o tempo, lucrem com isso, mas lembrem quão fugaz essas modas sensacionalistas são”, diz Lucas. “Esse não é o tipo de bolo que vai virar um clássico ou aparecer em livros de técnicas, mas se a gente situa dentro do que ele é, tudo bem”, acrescenta Otávia.

PARA SURFAR NA ONDA

Para quem já trabalha na linha da voluptuosidade, das modas e dos doces instagramáveis, o bolo tsunami é uma oportunidade de vendas batendo à porta. Assim com já foi o bolo de churros, o bolo de Kit Kat, o piscina, o vulcão, o naked, lá em seus primórdios e mais recentemente o copo da felicidade. “Se o trabalho da marca é coerente com esse estilo, faz sentido oferecer esse também. Ainda que ele não entre no cardápio para sempre”, aponta Paola.

É o caso da Flakes Chocolateria, de Porto Velho (RO), que baseia os produtos de sua vitrine no que há de mais quente nas redes sociais, da Miss Cookie, de Foz do Iguaçú, da May Sales Gastronomia, de Campinas (SP), ou da Bendito Salgado, de Salvador, por exemplo. “A gente sempre procura estar inovando e trazendo novidades para os clientes. Desde que surgiu, colocamos o bolo tsunami no nosso cardápio. Ele não é nosso carro-chefe, mas está tendo uma saída bem legal. Ele chama atenção. Os clientes participam da experiência, filmam, postam e isso ajuda a atrair mais gente”, conta Leonardo Borges, confeiteiro e sócio da Flakes.

Para garantir o efeito avassalador alguns cuidados devem ser tomados na montagem. Usar bolos densos, amanteigados, que sustentam melhor o peso da cobertura e têm mais presença de sabor é essencial, assim como prender bem o acetato, deixando-o bem justinho à circunferência da massa. Não exagere na altura ou no recheio para que, à retirada da tira de proteção, apenas a calda do topo se desloque, e não todas as camadas.

Acerte no ponto da cobertura. Ela não pode ficar muito dura em temperatura ambiente, para que tenha caimento, nem muito, a ponto de escorrer completamente. “Uma ganache mais fluida, um molho de chocolate engrossado com gema, um brigadeiro bem molinho são boas saídas”, indica Otávia. “Vi muitas pessoas usando leite condensado cru com leite Ninho para fazer a calda. Mas, sinceramente, para comer isso eu teria de ter 10 anos, que é quando comer esses dois ingredientes dessa forma fazia sentido”, diz Lucas Corazza. Então, nada de preguiça na elaboração. Com um pouquinho que estudo e boa vontade é possível entregar um produto diferenciado ao cliente.

Outra dica é investir na qualidade dos ingredientes e brincar com as combinações de sabores, mas sem exagerar na mistura. Mesmo com tanto recheio é preciso ter um mínimo de equilíbrio. No lugar dos confeitos do topo, que em geral são puro açúcar e gordura, busque algo que agregue sabor, como frutas cortadas, nibs de cacau, fitas de coco, amêndoas tostadas ou mesmo um pouco de bolo esfarelado de cor contrastante.

“O importante é você já ter uma receita certinha, com as medidas padronizadas e os custos calculados para, caso surja uma encomenda, estar preparado”, lembra Paula. Afinal, o que não se quer é perder dinheiro para estar na moda. Jogue a seu favor.

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