Doce Portugal
Doce Portugal

Quando em Portugal, mesmo que sejam tentadoras as alheiras, migas, os fresquíssimos frutos do mar ou um belo porco alentejano do focinho ao rabo, guarde sempre espaço para as sobremesas.

por Nani Rodrigues - 30/09/2020

São todos doces, amarelos e à base de gemas, mas de um para o outro mudam-se a textura e o sabor! Como é possível?, eu pensei.

Mineira que sou, dessas bem típicas, cresci comendo ovo frito por cima do arroz. Foi minha primeira liberdade no fogão de minha família, quando eu mal tinha tamanho para vigiar a pequena frigideira que acomodava apenas um por vez, mas lá estava eu fritando todos os dias um ovo para o almoço. Gema dura pois eu era criança chata de doer e que não sabia nada sobre as coisas boas da vida.

Já mais crescida e adepta da gema mole, me meti a estudar bolos. Eram modelos perfeitos para minhas fotos de gastronomia. Entre os preparos mais trabalhosos para festas e os mais simples para cafés da tarde, os ovos passaram a fazer parte da minha vida doce. Curds, creme pâtissière, creme inglês… Eu me achava chique de doer sabendo todos aqueles nomes, o que eu não esperava era que, anos depois, uma visita à Portugal escancararia minha ignorância com a delicadeza de um coice.

Em minha última viagem ao país, à trabalho, confesso que estava cética. Nunca fui dos quindins, queijadinhas e fios de ovos. Um breve olhar para toda aquela infinidade de sobremesas amarelas de doer me causava aborrecimento e sensações incontroláveis de monotonia e desconfiança. Melhor focar as energias em uma pratada de alheira ou um bom bacalhau, pensava, mas pagar língua jamais seria uma expressão tão boa se não tratasse da anatomia do paladar.

O dever me chamou e me vi cara a cara com um prato sortido de doces tradicionais, um desses momentos decisivos da vida: apenas fotografar ou fotografar e comer? Em meu ofício, veja bem, não há como separar uma coisa da outra. Se trabalho para fazer com que as pessoas não consigam resistir à comida que fotografo, que espécie de fotógrafa de gastronomia seria, se não ficasse eu mesma babando pelos meus modelos comestíveis? Foi batata! Fui seduzida com a mesma rapidez com a qual se come um Travesseiro de Sintra: duas mordidas (das grandes).

Quando se trata de ovos, nada se compara à doçaria portuguesa. É de se impressionar o trabalho desenvolvido ali com o passar dos anos. A diferença mora nos detalhes, um pouco menos de açúcar aqui, um toque de farinha de amêndoas acolá ou uma boa dose de raspas de laranjas (do Algarve, óbvio) para finalizar. Viaje por Portugal inteira e jamais irá provar um doce de gemas igual ao outro, parece até trabalho divino.

É como os Ovos Moles de Aveiro, há em seu preparo algo de celestial. A receita é obra de freiras que moravam em conventos da região. Conta-se que para que o recheio fique perfeito, é necessário usar uma colher de pau e mexer a mistura de gemas e açúcar em uma única direção, evitando movimentos circulares. Por via das dúvidas, reze sempre uma Ave Maria para acompanhar. Se a reza funcionar, por cima disso tudo vão finas camadas de hóstias em formato de conchas, búzios e outros elementos do oceano, em uma homenagem ao mar, que fica logo ali ao lado. E o tamanho do doce ao fim, delicado que só ele, é o ideal para ser apreciado em apenas uma bocada, como na comunhão. Amém!

Do outro lado do país, já quase na divisa com a Espanha, a pequena Monsaraz revelou uma doçura inesperada mas não menos divina e que me fez cair de joelhos. A Delícia de Monsaraz, além das gemas, leva em seu recheio laranja e abóbora, tudo isso finamente delineado por uma massa de amêndoas crocante em formato de estrela de sete pontas. Nem adianta procurar no Google, não há menção a ela em lugar algum. Da sua história, o que sei ouvi do casal de franceses que se apaixonou pela região e abriu ali um mercadinho no topo da montanha. Thierry e Alexandre compram a misteriosa gostosura de uma senhora da cidade, e isso é tudo que se sabe.

O que não é mistério para nenhum brasileiro, talvez seja o cartão postal culinário de Portugal quando se trata de turistas tupiniquins, o famoso Pastel de Nata. Eu, como muita gente, o conhecia como Pastel de Belém. Mais um desses casos nos quais o produto fica tão famoso pelas mãos de uma determinada casa que acaba se tornando consagrado com o nome dela ao invés de carregar o seu de origem. Pois é a poucos metros de distância da Torre de Belém em Lisboa, que turistas das mais variadas origens se enfileiram para provar a iguaria. Com canela e açúcar por cima é o modo mais adequado de comê-lo, faça-me o favor! É também indispensável em dias de ventania, comer de costas para o Tejo. As escolhas da vida podem ser difíceis, eu sei, mas entre uma boa vista e a mordida perfeita, eu fico com a segunda, muito obrigada.

No frigir dos ovos, do branquíssimo Algarve ao sinuoso Douro, uma coisa é certa: quando em Portugal, mesmo que sejam tentadoras as alheiras, migas, os fresquíssimos frutos do mar ou um belo porco alentejano do focinho ao rabo, guarde sempre espaço para as sobremesas. Por lá não há dúvidas sobre quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha, a resposta é sempre doce.

PARA TRAZER PORTUGAL PARA PERTO!

Pastel de Nata

Pastel de Nata

Pastel de Nata é o mesmo que Pastel de Belém, porém essa iguaria só pode ser denominada de Pastel de Belém se for produzida na fábrica fundada em 1837 na Rua de Belém, em Lisboa, seguindo a tradição de mais de um século.
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