Sonhos não envelhecem
Sonhos não envelhecem

Sonhos não envelhecem

Um passeio pelas confeitarias históricas do Centro do Rio de Janeiro a bordo da fantasia da confeiteira carioca Laila Caminha | fotos Bel Corção

por Constance Escobar - 22/05/2020

A nota pinçada na revista Fon-Fon é uma das muitas ocorrências pitorescas que emergem nas pesquisas constantes de Laila Caminha na hemeroteca da Biblioteca Nacional. A confeiteira carioca, cujo grande sonho é um dia poder viajar no tempo, é capaz de passar horas procurando registros sobre uma época em que a Avenida Central (hoje Avenida Rio Branco), e não a orla, era o eixo de circulação da burguesia no Rio de Janeiro, então capital do País. Um período em que as confeitarias do Centro eram símbolos da reconfiguração de uma cidade em busca de se afirmar no mundo.

Laila, contudo, não romantiza sua convivência de profunda intimidade com essas confeitarias, hoje centenárias: não se trata de uma evocação proustiana, mas de uma relação construída já na maturidade da vida adulta.

Curiosamente, foi só depois de graduada em Gastronomia, e treinada nas técnicas de confeitaria moderna, que ela voltou seu olhar para esses lugares. A Sorveteria Brasileira, citada na nota da Fon-Fon, Laila não chegou a conhecer – o mais próximo disso são as taças de sorvete que arrematou num leilão, gravadas com o nome do estabelecimento. Mas outras notórias testemunhas dessa época romântica do Centro da cidade passaram a fazer parte de seus percursos frequentes.

A carioca não supervaloriza o que sai dos fornos das antigas confeitarias e admite que boa parte de sua produção está abaixo da crítica: “É muito limitado o que vale a pena comer em cada uma delas, é preciso saber procurar. Alguns desses lugares estão decadentes. Tem muita coisa feita com mistura pronta, por exemplo”, observa. Nas muitas visitas, aprendeu a descobrir nos balcões algumas exceções.

Confeitaria Colombo, Casa Cavé e Confeitaria Manon são os endereços que ela percorre com mais assiduidade. Na Colombo, raramente chega a se acomodar, só quando leva algum amigo turista: “Vale muito pelo passeio, mas admito que a cozinha não tem salvação. Vou sempre porque é deslumbrante, é uma das confeitarias mais bonitas do mundo. Gosto de imaginar como era entrar naquele salão décadas atrás. A marcenaria sob medida, os espelhos belgas… Adoro olhar as peças antigas que ficam nas vitrines na entrada, as louças que eram fabricadas pela Vista Alegre…”

Na Casa Cavé, geralmente vai em busca dos casadinhos com doce de leite: “Há beleza em pedir uma caixinha daqueles biscoitos e levar pra casa. Gosto também dos caramelos, que ainda hoje são embalados em papel. Não são tão bons quanto os que eu mesma faço com fava de baunilha, mas têm seu encanto.”

Na Manon, seu destino são os madrilenhos: os famosos pães doces com creme e goiabada, um clássico da casa. “Não como nada mais, vou lá só pelos madrilenhos. Eles me lembram muito a época em que morei em Teresópolis, quando o programa de todo fim de tarde era ir comer pão doce na padaria. Dificilmente passo pela Manon sem levar uma caixa de madrilenhos pra casa. Não é nostalgia, não, acho gostoso mesmo, tem seu valor. É o tipo da coisa que, se gourmetizar, estraga.”

Contudo, é ao falar sobre um endereço sem tanta tradição e notoriedade que sua fantasia ganha ares de concretude. A diminuta Bombonière Pathé, anexa ao prédio que abrigava o antigo Cine Pathé, na Cinelândia, é o lugar onde a imaginação da confeiteira carioca promove um encontro entre passado e futuro. “Essa bonbonnière é meu sonho. A marcenaria é muito refinada, de um tipo que não se faz mais hoje. Está tão abandonada, é uma pena. Idealizo como seria arrematar aquele imóvel e fazer dele um ponto de venda das minhas balas favoritas no Brasil e do mundo. Daqui, gostaria de ter balas Galo Doce, os caramelos toffee da Bhering… Ia ter que ter bala de coco, claro. E alfenim. Gostaria também de ter as balas Boneco, que a Bhering já não fabrica mais, lembra? Quem sabe ainda consigo ir na fábrica em Minas Gerais e comprar os moldes antigos em que elas eram feitas? Sei que essa ideia não seria comercialmente viável, mas sonhar é de graça, né?”

Sim. Sonhos, além de gratuitos, não envelhecem.

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