Doce Natal
Doce Natal

A importância (ou descaso) do doce tradicional na festa luso-brasileira

por Lucia Soares - 30/11/2020

“Em Belém vila do amor […]
Da rosa nasceu a flor,
Pera nosso Salvador:
Virgem sagrada.
Nasceu a rosa do rosal,
Deus e homem natural:
Virgem sagrada.”
Gil Vicente, Auto da Feira, 1527

 

Em 1500, enquanto o Brasil nascia, surgia logo depois, em 1502, o teatro em Portugal, pelas mãos do dramaturgo lusitano Gil Vicente, com suas primeiras peças dedicadas ao Natal, as chamadas Matinas de Natal. O teatro vicentino procurava uma forma de pregar, de modo mais atrativo, a doutrina cristã, e combater os vícios que ameaçavam a sociedade daquela época ou em outro tempo qualquer. Dentre esses desvios de conduta, estavam a assimilação do hábito de ofertar mimos e de cultuar a gula… Vale ressaltar que o calendário cristão, de acordo com a Regra de São Bento, por exemplo, impunha a abstinência e o jejum em determinadas épocas do ano, inclusive no Natal, recomendando também a moderação como princípio moral, embora houvesse a ressalva de que o comportamento alimentar não era determinante para a essência do cristianismo. [i]

No entanto, foi nesse mesmo período que o consumo, a produção e o comércio de doce ganharam uma dimensão tal que passaram a fazer parte do cotidiano português, tornando-se, inclusive, um traço da identidade cultural desse povo. A demanda de doce, durante todo o ano, já movimentava uma doçaria artesanal com características industriais, como podemos observar nesse registro, de 1552, que contabiliza “30 tendas de confeiteiros. Em cada uma quatro, cinco pessoas. Que são cento e cinquenta por todos.” Apresentando ainda uma forte expressão da produção de marmelada: “Tem 50 mulheres que têm por ofício fazer marmelada […]. ” [ii] E quanto ao consumo voltado para as festividades do Natal: “quinze dias antes do Natal até dia dos Reis se põem 30 mulheres na Ribeira e Pelourinho Velho com suas mesas cobertas de toalhas e mantéis muito alvos, e em cima gergelim, pinhoada, nogada, marmelada, laranjada, sidrada, e fartéis, e toda outra sorte e maneira de conservas.” [iii] Há notícia de um Natal, festejado em Viseu, em 1414, em que o Infante D. Henrique e seus irmãos se deleitaram com “todadas viandas d´açúcar e conservas que se puderam achar no regno”. [iv]

Essa relação entre certos pratos e determinados ritos comemorativos passou a existir ainda no século XVI, bem como a conexão entre algumas iguarias e o calendário litúrgico. Naquela época, o consumo dependia de três condições: do poder econômico da família, da estação do ano e sazonalidade dos produtos, e da localização geográfica do consumidor. Quanto aos doces próprios para o Natal, o Convento de Santa Clara, em Santarém, servia “desfeito, pão de calo, beilhós, chouriços (doces), picado (doce), arroz doce, malassadas e farteis pelo Natal.”; E o Mosteiro de Nossa Senhora da Encarnação, do Funchal, na Ilha da Madeira, oferecia “argolinhas, batatada, bolo de mel, chouriços (doces) e pão-de-leite […]” [v] Desse modo, constatamos a existência de um grande número de itens da doçaria que correspondiam às especificidades que caracterizavam a tradição natalina portuguesa de cada cidade ou região.

A partir do século XVI, a abundância de açúcar, oriundo do Brasil, possibilitou que Portugal desenvolvesse uma doçaria conventual sortida e requintada. Como as freiras eram, muitas vezes, provenientes de palácios, pois, pertenciam a famílias aristocráticas ou muito ricas, imprimiram nos doces desses conventos uma etiqueta, um referencial do gosto e uma hierarquia reproduzida e aclamada até os nossos dias.

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