Mulher de tacho
Mulher de tacho

A mulher do tacho resistirá. Sua sabedoria e importância para doçaria popular continuarão a se transformar com o tempo. Para que as formas de fazer doce se renovem, e para que nossa dignidade e importância seja alcançada.

por Rafa Medeiros

Doceiras populares não querem o seu resgate.

São gerações que se renovam muitas vezes sem que os laços sanguíneos precisem existir.

Na volta do mercado, com a bicicleta carregada de coco para se tirar o leite e depois virar doce, avistei uma senhora que vendia canjica de milho, doce de banana de rodelinha, doce de mamão verde e bombons com recheio de cocada. Tudo isso exposto e transportado num carrinho de mão, que ela carregava andando pelo bairro, buscando vender sua força de trabalho dentro de cada um daqueles potes adoçados com suor e os seus muitos anos de peleja.

Levei pra casa sentimentos e reflexões, junto do olhar dela que sorria por cima da máscara. Claro que não esqueci de levar a canjica amarelinha com bastante canela, que ainda estava morna na vasilha e um pote cheio de rodelinhas de bananas avermelhadas envolvidas numa calda doce. Vermelho-Banana: cor e sabor favoritos da vida ou seriam ótimos tons pra uma bandeira do Brasil.

Não foi preciso que eu ou a Sra Doceira do carrinho de mão dissesse seu nome, idade ou endereço. Nós éramos conterrâneas do ofício de viver da lida de adoçar com as mãos, a boca e a vida de desconhecidos.

Me despedi dela agradecendo o momento marcante e inesquecível. Tímida, ela continuava a sorrir com os olhos, dizendo que me visitaria todo dia se pudesse. Rimos juntas, falamos de como é difícil fazer e viver de doce de tacho, mas que abandonar o ofício era quase como escolher deixar de existir.

Com os olhos marejados, me senti a mulher mais importante e de muita sorte pelo encontro inesperado, pelo rico conhecimento técnico e de vida que ela carregava e ali humildemente compartilhava comigo cada detalhe do seu fazer e das dificuldades que nunca a fizeram desistir de continuar .

Seguimos nossos rumos, ela com o carrinho de mão e eu pedalando na bicicleta.

Já em casa, comi o doce aos poucos, como quem não quer nunca que aquele encontro se acabe. Penso que nós duas, e tantas outras como nós, continuarão suas lidas em viver de trabalho doce, e não é o resgate que condicionará uma mudança sobre as senhoras artesãs, os doceiros e doceiras, mas uma transformação pela raiz.

A mulher do tacho resistirá. Sua sabedoria e importância para doçaria popular continuarão a se transformar com o tempo. Para que as formas de fazer doce se renovem, e para que nossa dignidade e importância seja alcançada.

Onde essa raiz doce nunca morre, e o fogo do tacho não se apaga. Continuando os caminhos e se encontrando na luta.

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