11 livros para quem é obcecado por comida
11 livros para quem é obcecado por comida
Escola de Confeitaria / Livros

11 livros para quem é obcecado por comida

Eu sou maluca por livros. M-A-L-U-C-A! Tenho uma biblioteca vasta e releio meus livros a todo momento. De todos os meus preferidos, tive a árdua missão de escolher onze livros que os obcecados por comida, como eu, não podem deixar de ler!

por Joyce Galvão - 13/03/2020

Você testa a mesma receita diversas vezes? Dirige quilômetros atrás de determinado ingrediente? Em suas férias escolhe o destino pelos restaurantes que deseja visitar?

Se você respondeu sim para a maioria das perguntas, assim como eu, você é obcecada(o) por comida. E, se você logo reconheceu alguém nessas perguntas, já descobriu que conhece alguém obcecado também. Pois aqui vão 11 livros que todo obcecado precisa ter!

O homem que comeu de tudo

Jeffrey Steingarten entrou na minha vida durante a faculdade de gastronomia em 2001. Sempre que eu saia da aula, antes de correr para o estágio, obrigatoriamente parava na livraria da faculdade e me encantava com os livros de cozinha. Em uma das visitas, o homem que comeu de tudo seguiu viagem comigo. E que viagem! Fui para África, Ásia e até Estados Unidos, e em poucos minutos me vi dentro da cozinha do ex-advogado que largou tudo para virar crítico gastronômico.

Meus dias de leitura foram deliciosos! Cozinhamos juntos, compartilhamos fobias alimentares e a luta por vencê-las. Jeffrey conseguiu se acostumar com o sabor do kimchi, a conserva coreana. Eu não. Ele desenvolveu um método para comer de tudo. E comeu. Eu? Sigo lutando para encarar ouriço cru. Mesmo assim descobri que nós dois tínhamos algo em comum: questionar e fazer pensar.

Depois de 20 anos e, um ano após o arrependimento em vender o primeiro exemplar que comprei, resolvi que queria ler o livro mais uma vez. Eu senti saudades das minhas aventuras com Jeffrey, das nossas conversas sobre a melhor maneira de preparar um bom levain. E também fiquei curiosa em descobrir se afinal, como o autor, eu finalmente havia aprendido a comer de tudo!

O homem que comeu de tudo, Jeffrey Steingarten, que me sinto íntima após 20 anos de leitura, escreve sobre sua curiosidade em relação a comida, e enquanto escreve também nos ensina a cozinhar e a comer. Delicioso, como um bom livro de gastronomia deve ser!

Saiba mais clicando aqui.

Deve ter sido alguma coisa que eu comi

Se você está lendo esse artigo é porque você é obcecado por livros de comida. Ou conhece alguém que seja. E talvez concorde que todo obcecado é um pouco paranoico. Eu sou e admito que já fiz uma mesma torta de queijo mais de catorze vezes para conseguir a receita ideal. Se você se identifica precisa ler “Deve ter sido alguma coisa que eu comi”.

Nesse livro Jeffrey viaja ao redor do mundo atrás da pizza perfeita e dos sabores mais inusitados. Prepara o mesmo prato muitas vezes até encontrar a combinação perfeita de ingredientes. Prova barras de chocolate e pães para cachorro-quente com o mesmo tratamento dispensado às lagostas e caviar. Paranoia? Não, apenas prazer em comer, o melhor!

“Deve ter sido alguma coisa que eu comi” marca a volta do homem que comeu de tudo. Mais paranoico que nunca e reúne suas melhores crônicas escritas para a revista Vogue. Leia sem moderação. Na verdade, não leia: devore!

Sal, Gordura, Ácido, Calor 

Esse é um livro que me transporta para dentro da cozinha e me leva muito além de qualquer outro livro. Nas páginas repletas de explicações minuciosas e muito esclarecedoras, Samin deixa espaço para questionamentos e, como uma guru da cozinha, responde a todos de maneira instrutiva e divertida. Com a ajuda das ilustrações de Wendy Macnaughton a leitura se torna muito mais saborosa.

É como se a Samin estivesse ao seu lado na cozinha, segurando a sua mão, e te ensinando todos os princípios da cozinha que ela demorou anos para aprender. Munida de elementos básicos: sal, gordura, ácido e calor, Samin vai te dar liberdade para cozinhar a comida que quiser (com ou sem receita).

Para mim o livro vai um pouco além de ensinar. Frequentemente sento na minha poltrona favorita, munida de uma taça de vinho, e leio como se estivesse lendo um delicioso romance. Faço isso quando tudo que preciso é de uma amiga que entenda minha obsessão por comida. E então, eu e Samin passamos horas e horas conversando sobre sal, tipos de macarrão ou as diversas maneiras de preparar um frango.

Depois da leitura me transporto para sua série na Netflix e viajo com ela, me divertindo com seu jeito doce e curioso que conquistou muitos chefs pelo mundo. E tenho certeza que vai conquistar você também!!!

Samin Nosrat é uma mulher incrível em tantos sentidos! Para mim foi uma honra poder colaborar com a pesquisa para a tradução desse livro!!!!

Cozinha Confidencial

Anthony Bourdain foi o primeiro cozinheiro-escritor que li quando decidi cursar a faculdade de gastronomia. E coincidentemente, o primeiro chef internacional que conheci pessoalmente.

Quando decidi desistir da Medicina para mergulhar na gastronomia, tive todas as dúvidas do mundo. O curso de gastronomia tinha acabado de chegar ao Brasil, a profissão ainda era mal vista e eu sabia que não seria fácil deixar uma carreira promissora como a medicina para entrar em um mundo até então, desconhecido.

Bourdain me ajudou, e muito. E olha que Cozinha Confidencial não é um livro mágico sobre a cozinha. É pesado, honesto e sórdido. O livro de não-ficção mais vendido do New York Times, publicado em 2000, voltou a liderar o ranking em 2018, após o falecimento do autor, e está repleto de pitadas de maldade e humor.

É exatamente como Nina Horta descreve na orelha do livro: “em meio a nuvens de fumaça de maconha, quantidades importantes de cocaína, outras várias drogas e uma animada atividade sexual, Bourdain mistura lembranças e comentários, com direito a mafiosos e Frank Sinatra, muito derramamento de sangue, bebedeiras gigantescas, pitadas de suspense e uma alegria atordoante no ar”. E é exatamente para o lugar que eu volto sempre que sinto saudades da época em que trabalhava em cozinha. Doido né?

O frango ensopado da minha mãe

Quando eu apresentava o programa A Confeitaria, em meados de 2011, Nina Horta me escreveu dizendo que eu era boa professora. Passava tranquilidade, falava bem e tinha muita presença na TV. Lembro até hoje como me senti ao ler aquelas palavras. E reler, mil vezes para poder acreditar. Imagina só que NINA HORTA ME ASSISTIA NA TV! 😱

Acho que mal sabia ela o quanto eu era sua fã, o quanto mergulhava em suas crônicas e me sentia abraçada. Quantas e quantas vezes não pareceu que nos sentamos em uma mesa e gargalhamos juntas enquanto bebíamos uma xícara de café ou, por que não, uma cerveja?

Nina Horta foi cronista da Folha de São Paulo por mais de 30 anos. Em 1995 publicou sua primeira reunião de textos no livro Não é Sopa, que, assim como Cozinha Confidencial, fez parte da construção da minha história na cozinha.

Eu lembro com muita clareza da primeira vez que li suas crônicas. De segurar seu livro em minhas mãos, virando página após página, devorando suas palavras da mesma maneira que eu devoraria uma fatia de bolo de brigadeiro.

O frango ensopado da minha mãe, vencedor do prêmio Jabuti de 2016, fala sobre a vida. Sim, também fala sobre comida, claro. Mas fala de uma vida simples, sem afetação, esnobaria… Do jeito Nina acreditava que a comida também deve ser.

A maior cronista do país, que nos deixou em 2019, nos envolve com suas histórias. Ler Nina é exatamente como uma colherada naquela canja fumegante que nos cura de uma gripe. Aquela garfada na sua sobremesa preferida. É “comida de alma que consola, escorre garganta abaixo quase sem precisar ser mastigada”.

Sorte a nossa poder ter a Nina presente nas palavras, para sempre.

Cozinhar: uma história natural da transformação

Michael Pollan mergulhou profundamente na cozinha, sob a tutoria de diversos chefs profissionais, para escrever Cozinhar: uma história natural da transformação. Através dos aprendizados e, após muita reflexão sobre a transformação do alimento, o autor dividiu o livro em quatro elementos: fogo, água, ar e terra.

Pollan talvez tenha lido “O homem que comeu de tudo” pois, assim como Jeffrey, ele não mede esforços para aprender a fazer o verdadeiro churrasco ou, viajar no último minuto para participar da Big Apple Barbecue Book Party.

Dominando o fogo, através do estudo do churrasco, partiu para desvendar os segredos da fermentação perfeita, sob o elemento terra. Vai do pão a cerveja, produzindo a bebida com as próprias mãos. Tanto empenho tem o único intuito de estimular (e alertar) o leitor a resgatar o hábito de cozinhar.

A partir dos quatro elementos o autor esmiúça uma história tão antiga quanto a própria Humanidade e propõe uma redescoberta de sabores e valores esquecido. Pollan afirma que nunca se cozinhou tão pouco. Sendo o homem o único animal que cozinha, precisamos reaprender a cozinhar do zero, da casca da cebola e não esquentando uma lata de comida.

Cozinha é, além de uma investigação científica, um guia sobre o preparo dos alimentos e uma reflexão sobre a transformação da natureza. Reconquistando o ato de cozinhar reforçamos vínculos comunitários e familiares, tornando nosso sistema alimentar mais saudável e sustentável.

Banquetes intermináveis

Banquetes intermináveis é uma coletânea de textos publicados na revista Gourmet selecionados pela consagrada Ruth Reichl, ex-crítica gastronômica do New York Times.

Nesse livro que celebra os 60 anos da revista, diversos autores compartilham suas lembranças de refeições impecáveis e experiências em locais distantes. Tão incrível é essa coletânea que inclui “Três estalagens suíças” da escritora M.F.K. Fisher, a melhor prosa da língua americana! Você também vai se surpreender com o relato emocionante de Ruth Harkness, que viajou sozinha para o Tibete durante a Segunda Guerra Mundial.

São histórias contadas lindamente e que sobreviveram ao tempo, mantendo-se modernas, frescas! Suculentas!!! As descrições estonteantes nos transportam para épocas, países e restaurantes jamais imaginados!

Poder viajar pelas palavras não só para países, mas épocas que eu nunca poderei viver faz o mundo, e especialmente o tempo, se tornarem insignificantes para mim. Pequenos demais para me impedirem de conhecer lugares inóspitos, provar comidas inusitadas e ter experiências em intervalo de minutos! Em Banquetes intermináveis eu posso viajar de trem com Paul Theroux e provar refeições caseiras enquanto paro em regiões estratégias para esquiar. Posso testar receitas originais, sem alterações para ingredientes modernos e descobrir como uma salada era servida durante épocas de escassez. Descobrir coquetéis, pratos e modos de preparos tão antigos que só um arquivo tão rico e generoso, como da revista Gourmet, poderia ter.

Cozinha: uma questão de amor, arte e técnica

Cozinha é emoção. E é arte!

O que um bolo de cenoura, de casquinha crocante, traz ao seu coração? O que você sente quando come uma manga suculenta, cujo suco escorre pela sua mão? Pense no seu prato favorito. Agora na palavra que o define. Encantamento? Talvez simplicidade?

Em Cozinha: uma questão de amor, arte e técnica o químico Hervè This e o chef de cozinha Pierre Gagnarie se encontram e nos convidam a participar de um jogo instigante: a cozinha!

Personagens como Aristóteles, Lacan e Malraux nos levam além do universo convencional da gastronomia. Aqui a cozinha é investigada com um olhar através do campo da estética e do prazer. Questões como a definição da culinária como arte ou artesanato, são temperadas com refeições e diálogos bem-humorados.

Não é um livro de cozinha, mas um livro sobre arte. E especialmente um livro que pode abrir um universo criativo para cozinheiros. Afinal, a arte culinária, como diz os autores, é uma arte completa!

Coming to My Senses: the Making of a Counterculture Cook

Estamos em 1970, em Berkeley, Califórnia. O aroma refrescante de eucaliptos se mistura a uma nuvem de gás lacrimogêneo, que flutua como neblina em uma manhã no campo. Manifestantes anti-guerra, feministas e uma multidão de estudantes são encarados por uma fileira de policiais armados.

Nesse cenário a Alice Waters de 27 anos abre as portas do Chef Panisse, o restaurante que mudou a maneira como os americanos comem e falam sobre comida. No mesmo dia, seu parceiro filma o funeral de George Jackson, um membro dos Panteras Negras. “Foi um lembrete para nós de que era uma época sombria”, escreve a autora em Coming to My Senses: the Making of a Counterculture Cook.

A autobiografia da chef (único livro em inglês da lista, e isso indica o quanto sua leitura vale a pena) narra sua vida até a inauguração de seu restaurante. Vai de sua infância no subúrbio de Nova Jersey até se apaixonar pela França (e mudar sua opinião sobre alimentação), sua formação e o encontro com a casa perfeita para abrir seu restaurante. Toda narrativa é complementada por fotografias, cartas e receitas. Mas são as confissões da chef que desmistificam sua fama e relevância no mundo da gastronomia.

“… fiquei profundamente desiludida com a política e, ao abrir o restaurante, pensei que estava desistindo”, escreve ela. “Mas tornou-se político. Porque, como se viu, a comida é a coisa mais política em todas as nossas vidas. ”

Coming to My Senses além de ser uma leitura deliciosa, é tudo que um livro de memórias deve ser: pessoal, universal e inspirador.

O terceiro prato

Dan Barber é chef executivo dos restaurantes Blue Hill em Nova York. Escreve com a mesma exuberância que cozinha e, em O terceiro prato demonstra que comer é nosso compromisso com o mundo. Um manifesto provocador com questões nunca antes formuladas a respeito do que significa ser um chef.

Em O terceiro prato Barber questiona sobre a natureza do sabor, do que realmente significa a palavra sustentável e propõe sua visão para o futuro da comida, mostrando que para comermos bem e produzirmos alimentos saborosos de verdade será preciso revolucionar o sistema alimentar.

“Tratar as causas em vez dos sintomas é igualmente elegante, mas não tão simples quanto parece. Para tratar a causa, você precisa procurar pelos problemas subjacentes – o que significa que precisa ter um certo tipo de visão do mundo.”

Dan Barber propõe uma revolução na maneira de produzir e consumir alimentos. A leitura é fundamental para quem procura entender como será a alimentação no futuro.

Como cozinhar um lobo

M.F.K. Fisher escreveu 27 livros. Como cozinhar um lobo foi seu primeiro e se tornou um clássico da literatura culinária. Mesmo que escrito em 1942, continua fresco, moderno e necessário. Um belíssimo texto, um documento sobre a alimentação em tempos de escassez, um manual sobre como descomplicar a vida e questionar a informação científica e pseudocientífica, as convenções e os preconceitos.

Hoje, em 2020 e o momento que estamos passando comprova o quanto M.F.K. estava anos-luz à frente de seu tempo. Ela escreve com invejável bom humor e maravilhosamente bem (uma das maiores autoras do gênero), mesmo falando sobre alimentação em tempos de guerra.

Como cozinhar um lobo foi escrito durante o racionamento da Segunda Guerra e há conceitos perfeitos para o momento em que vivemos de tantas incertezas, em que cortamos excessos, reavaliamos necessidades e repensamos como viveremos daqui em diante.

Mais que um livro, como diria Nina Horta, é um manual para descomplicar a vida. E portanto, leitura obrigatória.

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